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Mudanças Climáticas, Racismo Ambiental e Enchentes no Brasil


“As enchentes no sul da Bahia e norte de Minas Gerais deixaram milhares de pessoas desabrigadas no final de 2021. As chuvas em Petrópolis/RJ mataram mais de 200 pessoas até março de 2022. Agora, Alagoas e Pernambuco, em especial a região metropolitana do Recife, sofrem com um dos maiores acumulados de chuva das suas histórias”.


Todas as informações acima foram extraídas de notícias de diversos portais. Todos têm algo em comum: o fator que leva a esses desastres, segundo elas, é o fenômeno natural. Porém, se observamos com mais cuidado quem são as vítimas de todos esses eventos, encontraremos algo interessante. Os desastres naturais tendem a atingir de forma mais violenta pessoas negras e pobres que vivem em situação de vulnerabilidade. Ora, mas se é assim, por que culpamos a chuva por tais acontecimentos?


Recife/Brazil. Credits: Reprodução/TV Bahia. Via Portal G1. May 2022.

Fenômenos naturais acontecem. Com a mudança climática, eventos extremos estão cada vez mais frequentes. Segundo o Observatório Clima e Saúde da Fiocruz, “as mudanças ambientais e climáticas globais, que têm se intensificado nas últimas décadas, podem produzir impactos sobre a saúde humana com diferentes vias e intensidades”.


Com informação e pesquisa de qualidade sendo realizada há décadas, os governos nos mais diversos níveis (federal, estadual e municipal) deveriam investir cada vez mais em prevenção de desastres e construção de cidades igualitárias. Contudo, “entre 2013 e 2021, a queda dos recursos destinados a cinco programas federais foi de 66%” (Associação Contas Abertas/CNN). Pernambuco, em 2013, recebeu do Governo Federal mais de R$400 milhões para investimento em prevenção de desastres. Em 2021, esse valor caiu para 168 milhões de reais. Recife, cidade plana e baixa que conhece bem alagamentos devido ao aumento das marés e chuvas intensas, investiu apenas 42,9 milhões de reais em urbanização em áreas de risco em 2021. Parece muito, mas de acordo com o vereador Ivan Moraes Filho (reprodução Twitter), apenas em publicidade a prefeitura investiu 40 milhões no mesmo ano.


Petropolis, Rio de Janeir. Feb/2022. Credits: Foto: Silvia Izquierdo/picture alliance/AP. Via DW.

Muitos especialistas concordam que apenas com investimento sério será possível evitar mortes e destruição, já que os eventos climáticos extremos já fazem parte da realidade global. Dinheiro, existe. A falta de interesse dos governos em resolver o problema, nos faz compreender que a razão é outra. Se apenas as populações negra, indígena e vulnerável são aquelas que perdem não apenas bens materiais, mas suas vidas, e não há interesse em resolver, a razão tem nome: racismo. Mais especificamente, racismo ambiental. É a discriminação racial aplicada na política pública ambiental. A exclusão de negros e indígenas do debate. A não demarcação de terras quilombolas e indígenas. O descaso com favelas e comunidades vulneráveis, como as comunidades de encosta em barreiras da Grande Recife. É não entender que a crise climática é, também, crise humanitária.


As chuvas em Recife e região vão voltar todo final de maio e mês de junho. Como todos os anos. Elas vão bater recordes e recordes. É escolha política, porém, que por causa delas, pessoas morram e percam tudo ou não.


Tassiana Oliveira

​​Pesquisadora pós-doutoral do Cebrap (Centro Brasileiro de Análises e Planejamento) e ensina no Departamento de Estudos Latino-americanos da University at Albany (SUNY) | www.tassioliveira.com



Se você quiser doar e ajudar comunidades de Pernambuco afetadas pela chuva, consulte os links a seguir: